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A primeira coisa a fazer: matar todos os advogados.
William Shakespeare
Se existe algum consenso milenar na humanidade, é sobre o ego dos advogados. Isso é praticamente um paradigma.
Não são poucos os adjetivos e rótulos que ouvimos ao longo de nossa carreira... Nem sempre agradáveis, nem sempre pessoais, nem sempre justos, mas não há como fugir ou negar: é um fato... Somos amados e odiados ao mesmo tempo.
Amados porque o Direito sempre produziu, continua produzindo e produzirá mentes brilhantes na capacidade intelectual de buscar o justo, a compensação por algum direito violado ou de uma lei ferida, de entender o ordenamento de determinada sociedade ao ponto de enxergar o que é moral e ético sob pontos de vista sociológicos. Odiados porque nosso temperamento tende a não ser agregador, ao contrário, afasta as pessoas, porque a mesma capacidade intelectual que busca Justiça também pode operar de forma não tão nobre.
É curioso, mas no meio jurídico o ego é cultivado desde os bancos da faculdade. Costumo brincar que nosso agigantado e disforme ego é fruto de alguma substância maligna que colocam na água dos bebedouros das milhares de faculdades de Direito do mundo, cujos efeitos se prolongam por décadas. É bastante comum encontrarmos estagiários com pose de "excelência", especialmente se desde cedo treinarem o uso do terno e da gravata. Com o tempo vem a verborragia jurídica, a certeza de saber tudo de tudo e mais que os outros mortais e a exigência pedante do "Dr." como pré-nome.
No entanto, essa postura não traz muitos benefícios nos dias atuais, até porque em busca de impor respeito e fazer valer suas prerrogativas acabam resvalando no terreno da prepotência, e acabam por desenvolver aversão nas pessoas, já que ela (a prepotência) faz de seu usuário um despótico, opressor e tirano que assume atitude de desprezo com relação aos demais. Que não ouve ninguém, a não ser a si mesmo.
Uma séria analise desse quadro nos leva a crer que o ego do advogado, de maneira geral, não é dos mais saudáveis. Entenda-se por 'ego saudável' a segurança que poucas pessoas têm em reconhecer sua capacidade e, ao mesmo tempo, aliar-se a outras de competências também excepcionais, sem sentirem-se ameaçadas. Sem ego saudável é impossível exercer a postura de liderança adequada à advocacia moderna, que precisa cada vez mais de equipes coesas e comprometidas a atingir os grandes objetivos de crescimento e desenvolvimento das organizações jurídicas.
Em"O Monge e o Executivo", James Hunter conta a história de John Daily, um homem de negócios bem-sucedido que percebe, de repente, que está fracassando como chefe, marido e pai. Ele poderia ser você, eu ou qualquer líder que tome decisões diariamente e que lide com pessoas. Uma das capacidades mais importantes do líder, abordadas por Hunter, é a de "ouvir". Ele diz que quando se interrompe alguém no meio de uma frase, várias mensagens negativas são enviadas: "não estou prestando atenção", "não valorizo a sua opinião", "o que eu tenho a dizer é muito mais importante do que você tem a dizer". Cada mensagem negativa enviada bloqueia a vontade de fazer, mina a motivação e corrói o espírito de equipe. "Não ouvir" é sintoma de ego doente. Em boa parte das situações, nós, advogados, sabemos falar bem, mas convenhamos, ouvimos pouco e isso reflete mal quando a tarefa é dirigir uma equipe.
Ser um líder no meio jurídico, seja num escritório de advocacia, seja num departamento jurídico, seja num gabinete de magistrado, é ter a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem com entusiasmo, visando atingir objetivos identificados como sendo para o bem comum, seja para a própria equipe, seja para o cliente, seja para a sociedade. A influência tanto pode ser desenvolvida através do poder (pela posição formal que o líder ocupa) ou pela autoridade (pela influência pessoal e positiva que ele exerce).
O poder é muito fácil de exercer, pois basta um cargo ou uma herança, pode ser dado, conquistado ou tomado. Já a autoridade requer um conjunto especial de habilidades, que dizem respeito ao que o líder é como pessoa, ao seu caráter, ao tipo de influência que exerce sobre os outros e a como constrói relacionamentos no longo prazo. Dificilmente o detentor de um ego doente influencia pessoas pela autoridade. Quase sempre pelo poder. O ideal seria se poder e autoridade se encontrassem no mesmo líder.
Jim Collins, co-autor do livro "Empresas feitas para vencer", em entrevista à HSM Management, publicada em 13/6/2006, diferencia cinco níveis de liderança. "O primeiro nível é composto por indivíduos de alta capacidade e talento; ou seja, pessoas talentosas que não vão além de seu talento. O segundo é composto por membros talentosos que contribuem com o grupo. O terceiro é o dos gerentes competentes, que organizam o pessoal e o encaminham em direção a um objetivo determinado. A liderança nível quatro é a dos líderes eficientes, aqueles que obtêm um compromisso de seus seguidores e o vinculam a uma visão clara. E finalmente a liderança estilo cinco que, de fato, é uma curiosa mistura de humildade e ambição. O líder estilo cinco não está interessado em levar os créditos, por isso ele é humilde; no entanto, ele é ambicioso no que se refere à empresa, não a ele próprio. Ele ama a organização e quer vê-la lá em cima. É ambicioso com relação ao trabalho, não à sua pessoa. O ego não atrapalha seu exercício de liderança. Ele não procura ser uma superestrela, mas procura que a empresa seja a superestrela".
Um líder de verdade inspira e extrai o melhor de seus liderados por meio de sua capacidade mental e intelectual; sua inteligência emocional; seu conhecimento técnico; sua sede de saber mais; sua autoconfiança e tomada de decisão; sua forma de guiar e indicar a direção; seu poder de persuasão; sua energia de ativação; sua capacidade de estabelecer relacionamentos. Somente um ego saudável consegue ser um líder em sua plenitude.
Porém, mais importante do que nos enquadrar num dos níveis de liderança de Collins, ou saber se influenciamos os outros pelo poder ou autoridade tratados por Hunter, é constatar que caso nosso médico (a nossa consciência) diagnostique que o nosso ego está adoentado, impossibilitando que exploremos o potencial produtivo de nossa equipe, ele pode ser tratado, melhorado e transformado. É uma questão fazer uma auto-análise, simplificar as coisas e agir de forma a criar sinergia entre a razão, a intuição e a vontade.
E aí, não vai levar seu ego ao médico?
Lara Selem - advogada, consultora sócia da Selem,