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Título: Fracassar está fora de questão!
Autor: Lara Selem

 

Lara Selem

 

Foi com esse espírito que a equipe do Centro de Controle de Missões (CCM) da NASA, guiou os três projetos da corrida espacial em direção à Lua (Mercury, Gemini e Apollo), de 1958 a 1975. John F. Kennedy, em 1961, lançou o desafio de, antes que a década terminasse, "enviar homens a Lua e retorná-los a salvo". Em seu famoso discurso na Universidade Rice, ele disse: "Nós decidimos ir a Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis". Em 20 de julho de 1969 a Apollo 11 pousou na Lua, numa bem sucedida missão que fez de Neil Armstrong o primeiro homem a caminhar em solo lunar.

 

Sem qualquer julgamento de valor, é importante frisar que a guerra fria entre EUA e URSS teve grande importância para a exploração espacial, haja vista os esforços de ambos os lados em "provar" a superioridade de seus respectivos sistemas, capitalista ou comunista. No entanto, o que nos importa neste artigo não é discutir política internacional, mas analisar o envolvimento da equipe do CCM da NASA na condução, suporte, controle e segurança de um dos maiores feitos do homem. Fracassar estava totalmente fora de questão.

 

Mesmo com toda a tecnologia e controle de qualidade disponível à época, em um ambiente tão hostil como o espaço e envolvendo máquinas tão complexas, é de se esperar que ocorram erros. Das inúmeras missões tripuladas americanas que decolaram, orbitaram e retornaram à Terra, há registro de um único acidente fatal: em 1967, um incêndio dentro da cabine de comando na plataforma de lançamento da Apollo 1 matou três astronautas.

 

Percebam que estamos falando de uma época em que a tecnologia era precária, se a compararmos com o que temos hoje em dia. O fato é que o CCM foi o centro nervoso da corrida espacial e o sucesso de cada missão dependia de homens e mulheres que lá trabalhavam. Os astronautas confiavam suas vidas cegamente àquelas pessoas. Do lançamento ao retorno das naves, a equipe monitorava sistemas e atividades a bordo 24 horas por dia, usava o que havia de mais sofisticado em termos de comunicação e processamento de dados, prestava atenção a cada movimento da tripulação, conferia duplamente cada número e fornecia expertise e suporte necessário caso ocorresse o inesperado. Um exemplo de inesperado foi o grave acidente com a Apollo 13 em 1970, que ao colidir com um meteorito ficou seriamente avariada em seu caminho em direção à Lua e resultou um retorno tenso e espetacular à Terra com um mínimo de oxigênio. A atuação do CCM foi fundamental para que o episódio tivesse um final feliz para os seus tripulantes.

 

Trazer para a nossa realidade o mesmo espírito obstinado e responsável que guiou a equipe do CCM nas missões tripuladas à Lua, pode nos levar a uma nova postura frente aos acontecimentos e decisões que temos que tomar diariamente para atingir os nossos objetivos profissionais. A maioria de nós quer progredir, vencer na vida, crescer e se desenvolver. E o "fracasso" definitivamente não está na nossa lista de sonhos. Só que o sucesso sustentável não acontece por acaso. Ele é fruto de preparo, muito trabalho, coragem e uma dose de sorte.

 

Entretanto, por nem sempre sabermos exatamente qual é o nosso verdadeiro sonho, por não definirmos bem quais são os nossos objetivos, e por não termos uma visão clara de futuro, acabamos tomando decisões por impulso. Isso aumenta exponencialmente o risco do erro e, por conseqüência, do fracasso. Quando sabemos o que queremos, buscamos alternativas e escolhemos o melhor caminho, não significa que anularemos o risco, mas reduziremos bastante sua ocorrência, já que ele é um elemento sempre presente, não importa a complexidade da decisão.

 

O processo decisório implica em compreender o impacto de cada uma das nossas escolhas. Para que ele se dê de forma satisfatória, é importante começar se perguntando sobre as causas que estão nos levando a tomar uma decisão: O que eu quero? Quais são os critérios que estou utilizando? Quais são as escolhas? Qual atende melhor a meus critérios? Qual é a desvantagem dessa escolha?

 

Coletar informações é fundamental, já que nem tudo está sob o nosso controle. Quanto mais conhecimento tivermos sobre fatos, tendências e históricos, mais munidos estaremos para identificar a melhor solução ou reagir, caso ocorra o inesperado. Refletir sobre todas as alternativas possíveis, explorando-as ao máximo, e utilizar contribuições de pessoas diferentes que estiverem relacionadas ao processo será muito positivo. Se observarmos ativamente as escolhas possíveis, maiores serão as nossas chances de sucesso.

 

Os riscos e benefícios de uma decisão devem ser sempre considerados. Uma abordagem racional a determinada escolha envolve equilibrar o risco com o benefício. Para saber o quão arriscada é uma decisão que se está tomando é necessário avaliar a probabilidade de riscos e que efeito isso teria sobre o todo. A matriz abaixo pode ser útil nessa análise:

 

Possibilidade de Impacto Negativo

Alto

 

 

 

 

Médio

 

 

 

 

Baixo

 

 

 

 

 

 

Improvável

Pouco Provável

Provável

Muito Provável

 

 

Possibilidade de Ocorrência de Risco

 

 

Baixo risco de impacto negativo

 

 

Alto risco de impacto negativo

 

Por exemplo, se os sócios de um escritório de advocacia sonham, no prazo três anos, fazer dele uma referência na área em que atua, bem como operar empresarialmente e atingir um faturamento duas vezes maior que o registrado hoje, antes de tomarem qualquer decisão estratégica, irão precisar de informações sobre:

 

-        Carteira de clientes (entrada de novos, rentabilidade de cada contrato de honorários, média de utilização dos advogados, grau de satisfação dos clientes);

-        Equipe jurídica (perfil desejado, avaliação da equipe atual, formas de remuneração, índice de rotatividade, grau de satisfação no trabalho, produtividade, desenvolvimento e produção intelectual);

-        Políticas administrativas (regras vigentes, grau de cumprimento das regras, relacionamento entre sócios, estilos de liderança);

-        Equipe administrativa (organograma e papéis desempenhados, perfil desejado, avaliação da equipe atual, formas de remuneração, grau de satisfação);

-        Planos de investimentos (critérios, prazos, grau de decisão, orçamento);

-        Financeiro (organização, controles, fluxo de caixa, inadimplência).

 

As decisões para alavancar o processo rumo às conquistas desejadas pela banca, envolverão desde a contratação e/ou demissão de membros da equipe, mudança na distribuição de lucros, alteração do layout do escritório, até o investimento programado em educação e tecnologia, implantação de Plano de Carreira, Plano de Marketing Jurídico, dentre outras, mais ou menos, complexas.

 

Para que a operação seja um sucesso, alguns comportamentos, habilidades e métodos deverão estar presentes: pensamento e planejamento estratégico (conhecer bem o ambiente interno e externo, ter um Plano B); clareza dos objetivos (quanto mais, melhor); consenso entre sócios (decisões em conjunto); envolvimento da equipe (ouvir opiniões); conhecer a cultura do escritório quanto à tolerância ao risco (se avessa, média ou arrojada); uso do pensamento racional e intuitivo (ambos contribuem para decisões equilibradas); métodos de delegação (confiança na equipe); tomada de decisão firme, clara e no tempo certo (fundamental para o fortalecimento da liderança); comunicação (deixar os outros saberem da decisão); monitorar o progresso (sistematicamente).

 

O resultado do processo será a soma de todas as escolhas. Quanto mais refletidas, analisadas e racionais elas forem, maiores as chances de acerto. E se o espírito "fracassar está fora de questão" for entoado diariamente como um mantra por toda a equipe do escritório, mais próxima ela estará da realização do que um dia foi apenas um sonho... como foi um dia o de o homem pisar na Lua...


Lara Selem - advogada, consultora e sócia da Selem, Bertozzi & Consultores Associados, especializada na profissionalização de escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e órgãos do Poder Judiciário. Autora dos livros "Gestão de Escritório" (Consulex, 2006), "A Reinvenção da Advocacia" (Forense, 2005), "Gestão Judiciária Estratégica" (Esmarn, 2004) e "Estratégia na Advocacia" (Juruá, 2003). MBA pela Baldwin-Wallace College (EUA), especialista em Gestão de Serviços Jurídicos pela Fundação Getúlio Vargas (SP), e em Liderança de Empresas de Serviços Profissionais pela Harvard Business School (EUA).

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