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ADVOCACIA EM FAMÍLIA
Lara Selem
“As famílias têm muitas maneiras de ser perigosas”.
Ernst Hemingway
O maior ativo de uma sociedade de advogados está nos profissionais talentosos que dela fazem parte, sejam como sócios, associados e/ou colaboradores. E um dos diferenciais mais importantes, quando se fala em sustentabilidade da sociedade no tempo, é a capacidade de fortalecimento de seu maior ativo, as pessoas, em especial o seu relacionamento.
Entretanto, quando a equipe é formada pelos membros de uma mesma família, situação bastante comum na advocacia brasileira, os cuidados devem ser redobrados para que haja equilíbrio e harmonia nas relações. Uma profunda compreensão do que os liga e dos impactos que seu relacionamento gera tanto para a família, como para a sociedade; do que precisa ser feito para garantir a manutenção e crescimento estratégico da banca; e conduzir e minimizar os conflitos fará muita diferença no que se está plantando para o futuro. A mais profunda força da família é biológica: elas existem para alimentar seus jovens e continuar a existência da linhagem. Darwin já dizia: “os genes que levamos conosco se perpetuam beneficiando a nós, seus hospedeiros”. Pertencemos a uma família desde que nascemos até depois da nossa morte. Pertencer a uma organização, por outro lado, é uma escolha e é temporária.
[1] define as condições e princípios essenciais para que haja equilíbrio e harmonia nas relações na família e nas organizações:
| NA FAMÍLIA | NAS ORGANIZAÇÕES |
| O direito de pertencer ao grupo familiar | A existência do problema |
| O que é, tem de ser reconhecido (respeito) | |
| O direito de preservar o equilíbrio de dar e receber nos relacionamentos | Mostrar a mudança e o que tem de ser preservado |
| Igualdade de pertencer (direito ao vínculo) | |
| O direito de ordem ou hierarquia dentro da família | Equilíbrio de dar e receber |
| Necessidade de ordem (hierarquia, antiguidade) |
As ordens do amor são forças dinâmicas e articuladas que atuam em nossas famílias. Percebemos a desordem dessas forças sob a forma de sofrimentos e doenças. Em contrapartida, percebemos seu fluxo harmonioso como uma sensação de estar bem no mundo. Da mesma forma ocorre nas organizações. Por exemplo, quando um advogado é demitido de forma grosseira é provável que outros membros da equipe se sintam inconscientemente “leais” a ele. Isso se manifesta muitas vezes com uma “rebelião” ou uma repetição daquele comportamento da pessoa demitida por outros membros do grupo que muitas vezes nem mesmo a conheceram.
Num outro exemplo, observa-se que para o bom desempenho do grupo, é necessário um respeito à ordem hierárquica. Supondo que um líder não assuma sua responsabilidade, é provável que um liderado o faça em seu lugar, mas isso gera na maioria das vezes um forte sentimento contrário por parte de seus pares, colocando o liderado numa posição conflituosa em relação a eles.
Se no comando da sociedade de advogados tiver uma família que apresente desordens nas forças dinâmicas do amor e a banca apresentar uma estrutura organizacional moldada para gerar conflitos, dificilmente se conseguirá crescer e desenvolver sem antes “curar” esses problemas.
GOVERNANÇA DA ADVOCACIA FAMILIAR
Preparar cada membro da família que faz parte da sociedade de advogados para enfrentar os desafios é fundamental para a saúde organizacional. Por exemplo, ser filho de um pai brilhante é um desafio para o qual muitos herdeiros não estão preparados.
Renato Bernhoeft e Miguel Gallo
[2] sugerem uma série de ações para minimizar os conflitos e garantir, na medida do possível, a longevidade da organização. Vejamos o que eles dizem:
- Herdar o patrimônio da organização (nome, reputação, carteira de clientes, contratos, etc.) não exime a família de continuar zelando pela sua relação familiar. Deve ser mantida a união nos seus rituais e valores e, acima de tudo, desenvolver formas inteligentes e amorosas de administrarem suas diferenças e conflitos.
- Administrar a sucessão compreendendo que ela diz respeito à transferência do poder para novas lideranças que deverão surgir. E lembrar que este não é um processo de escolha imposto, mas uma transição em que a legitimidade deve ser conquistada entre os componentes da geração seguinte.
- Estruturar um adequado sistema de governança que permita compatibilizar os interesses coletivos e os individuais dos membros da família.
CONFLITOS CLÁSSICOS
Já vi muitas famílias de advogados em “guerra”. Lutas por poder, dinheiro, espaço, picuinhas, alianças. Irmãos tentam superar uns aos outros. Filhos lutam com pais pelo trono. Um ramo da família luta para controlar outro ramo. Diferenças de opinião que dividem o grupo. Algumas são cruéis e mercenárias. Outras são veladas pela educação e formalismo, mas estão subterrâneas, prontas para eclodir. Não é exagero. Ainda mais em se tratando de advogados que, como nós, foram durante cinco longos anos forjados para o combate, para a contenda.
Conflitos fazem parte da vida e dizem respeito a pessoas querendo coisas incompatíveis, ou competindo pela mesma coisa, onde a perda de uma é o ganho da outra. Uma ferida aberta e vulnerável nas organizações é o perigo de qualquer conflito se misturar com questões pessoais. E nas famílias, por amplificarem todas as emoções, isto é muito comum.
Alguns exemplos de conflitos de podem (e devem) ser evitados em sociedades de advogados de natureza familiar:
Lara Selem é sócia da Selem,